CONTO | Pra quê adotar um gato?



– Pra quê adotar um gato se a gente já tem um cachorro?
– Pra fazer companhia a ele.
– Mas cachorro não gosta de gatos.
– Como você pode saber se eles nem se conhecem ainda?

Rina nada disse. Apenas pensou "é mesmo".

A feira estava acontecendo no centro da cidade. Não houve grande divulgação, as pessoas diziam umas às outras que iria acontecer até que chegou a sua mãe. Mesmo já criando um cachorro, que era muito amado e supria de forma satisfatória a necessidade básica e familiar do ser humano de se ter um bichinho. Porém, a mãe de Rina achou que seria uma ótima idéia aumentar a família com um gato, que poderia deixar tudo ainda mais feliz e agradável.

Rina só conseguia pensar em desavenças entre o gato e o Touro. O cão se chamava Touro. Ele não se parecia com um touro. Era magro e saltitante, mas a criança achou que seria uma ótima ideia batizar o animal dessa forma. Como se chamaria o gato? Rina precisaria olhar para o gatinho para poder pensar em algum nome que ficasse legal nele. Mesmo que o significado não apresentasse semelhança com o gato.
O local era grande, porém a feira em si ocupava apenas um pequeno espaço do centro de convenções. Embora a feira não fosse extensa, haviam várias pessoas circulando e olhando mais os produtos relacionados a gatos que estavam vendendo do que os bichinhos que estavam para a adoção. As pessoas chegavam com seus gatos em pequenas gaiolas e as empilhavam com o nome do tutor. Havia uma moça explicando que os gatos eram previamente cadastrados, os que são doados passam por castração, e quando adotados, o animais são microchipados com o nome e o endereço do novo dono. Não tem GPS, mas de alguma forma tem como saber se a pessoa abandonar.

– Certo – disse a mãe de Rina – olha essas coisinhas que fofura! Filha, você pode olhar os gatos, eu vou ver essas barraquinhas. Tem muita coisa linda aqui, meu deus. Tem até pra cachorro...
– Tá bem, mãe.

Rina ainda não sabia se queria adotar um gato, então esperava que algum a cativasse e a fizesse ter vontade de levar pra casa.

Haviam gatos de todos os tipos e tamanhos. A menina olhava e não se contentava muito. Em meio a miados, e pelos, ela esperava algo que se diferenciasse de seu cão, algo que ela não tivesse ainda, e mais importante que fosse preguiçoso o suficiente pra não arranhar as coisas dela.
Rina se afastou um pouco da feira.

– Ok Google! Pra quê adotar um gato?
– Num futuro próximo, conglomerados flutuam até as estrelas, elétrons e luzes viajam pelo universo, o avanço da computadorização, entretanto, ainda não eliminou nações e grupos étnicos.
– É o que?
A menina percebeu que aquilo não era o celular falando. Olhou em volta. Só havia um gato ao seu lado.
– Você fugiu? – o gato apenas a olhava – Tem alguém assistindo documentário aqui?
– Só estou lhe dizendo que o seu celular pode acabar destruindo você e sua espécie – disse o gato.
– Meu deus, você fala! Você é um robô? É por isso que tá solto por aí, alguém deve ter perdido.
– Menina, não tá vendo que eu sou um gato?
– Mas você fala. Então é um robô.
– Tem robô que não fala.

Rina nada disse. Apenas pensou "é mesmo".

– Veja, sei que é difícil de acreditar, mas eu sou realmente um gato.
– Então gatos falam?
– Não, gatos não falam.
– Mas você é um gato.
– Veja bem, me escute. Eu faço parte de um grupo seleto de gatos, que por um acaso falam. Essa feira é só uma fachada pra uma feira secreta por trás dessa onde estão se livrando da gente.
– Isso é muito louco!
Mas Rina pôde ver com seus próprios olhos. Não muito longa da feira, numa parte subterrânea do Centro de Convenções, havia uma outra feira. Também com gatos. Era como a feira que ocorria acima, mas seus transeuntes eram estranhos e familiares homens de gravatas e ternos intimidadores.
– Espera, eu já vi aqueles homens na TV. São presidentes?
– Alguns líderes mundiais e seus seguranças.
– Por que presidentes iriam se arriscar de vir todos ao mesmo lugar pra adotar gatos falantes? Poderiam mandar representantes. Isso não faz sentido.
– Você está aqui falando com um gato, nada faz sentido.
– Mas o que vocês são? Robôs?
– Não, eu já disse que a gente não era robô.
– Mutantes?
– Éramos pessoas. Humanos assim como você. Mas puseram nossos cérebros em gatos e agora querem se livrar da gente.
– Colocando pra adoção?
– É.
– Realmente nada faz sentido.
– Mas se você queria ver um robô, lá está um – o gato indicou o homem laranja com um topete estranho.
– O presidente dos Estados Unidos?
– Sim, ele é um bot, tipo esses do Twitter, controlado por pessoas odiosas que não tem bom senso.
– Não sei, eu não tenho Twitter.
– Vê as coisas que ele fala na TV?
– Eu não vejo TV.
– Sorte sua.
– Mas então, o que a gente faz?
– Não faço ideia, mas é bom que ninguém lhe veja.
Mas então alguém surgiu por diante deles.
– Olá – dizia a pessoa a mulher de cabelos curtos e rosto estranho – Já escolheu seu gato?
– Sim sim, eu vou levar esse. Minha mãe está assinando as coisas que tem pra assinar.
O gato falante vagarosamente foi ao colo de Rina.
– Só que não é pra passear desse lado, os gatos aqui são bem doentes e podem passar pra você.
– Tudo bem, eu vou procurar minha mãe.
Os dois então voltaram a feira comum. A mãe de Rina ainda estava vendo as coisas da barraquinhas.
– Mas então, o que a gente faz? – perguntou Rina.
– Eu vou lá soltar todo mundo.
– Você é doido?
– E o que você sugere?
– Ah, solta sim. Os bichinhos.
O gato olhou para Rina com reprovação. Silêncio de alguns instantes.
– Você precisa falar para aquela moça que não acha a sua mãe, e que me perdeu. Quando ela for te ajudar a procurar, eu vou tentar soltar os gatos.
– Mas a gente ainda vai ter que te achar depois.
O gato nada disse. Apenas pensou "é mesmo".
– Fala que desistiu e que quer um cachorro.
– Eu tenho um cachorro.
– Que quer outro gato.
– Tá bem então.

Então, os dois foram executar seu plano mirabolante. E não tem muito o que contar a respeito, porque foi exatamente isso. E deu certo. Por incrível que pareça, líderes mundiais que mais conversavam entre si, e seguranças que mais conversavam pelos celulares entre si, não notaram o gato abrindo gaiola por gaiola e todos os gatos fugindo rápida e cautelosamente.

Rina então, acompanhada da mulher estranha, encontrou sua mãe e agradeceu a moça, que voltaria para descobrir que os gatos haviam fugido. Ao ir falar com sua mãe, o gato reapareceu. Rina pegou-o do chão e disse "mãe, escolhi esse gato", de forma tão fria que sua mãe e o gato ficaram intrigados. Ao chegar em casa, em seu quarto, a menina e gato puderam conversar.

– Você sabe que eu não vou ficar com você né?
– Eu não queria um gato mesmo. Vou dizer a minha mãe que você fugiu.
– Você realmente não gosta de gatos?
– Não.
– Melhor assim.
– Mas onde estão os outro que você soltou?
– Olha pela janela.
Havia vários gatos circulando pela parte da rua na frente da casa. Esperando.
– Tomaremos nosso caminho.
– Onde vocês vão?
– Formar nossa Sociedade dos Gatos Falantes.
Então o gato se foi.
E pelos olhos mecânicos da menina robô, a moça de cabelos curtos e rosto estranho, observava enquanto mantinha Rina em cativeiro.

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